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O Dom de Línguas


A Xenoglossia e Glossolalia, manifestações conhecidas popularmente no meio religioso como “dom de línguas”, são supostos fenômenos psíquicos nos quais uma pessoa seria capaz de falar idiomas humanos que nunca aprendeu nem conviveu (xenoglossia) ou línguas estranhas [de anjos?] (glossolalia).

Diz o livro bíblico dos Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento, capítulo 2, que no dia de Pentecostes (cinquenta dias depois da Páscoa), dez dias antes de Jesus ascender ao céu, os onze apóstolos restantes, além de Matias, estavam reunidos num cenáculo quando, de repente, veio um vento forte e línguas de fogo pousaram sobre eles e então ficaram todos cheios do Espírito Santo, começando a falar em outras línguas, conforme o mesmo Espírito lhes concedia que falassem. De acordo com os teólogos, nascia aí o Cristianismo e a xenoglossia nele, fenômeno este que viria a se repetir em outras ocasiões durante os primeiros séculos de existência da nova religião, mas que seria quase esquecido ao longo dos séculos até o surgimento do movimento pentecostal do século XX.

Estes Fenômenos em Religiões Diversas

A igreja católica não nega existir o dom de línguas, como foi afirmado por São Paulo na carta aos coríntios, testemunhado pelos apóstolos, mesmo que a manifestação deste carisma seja de certo modo incomum a muitos fiéis. A atual prática, inserida expressivamente dentro da Renovação Carismática Católica, não é estranha ao ensinamento da Igreja, já que a mesma tem conhecimento e aprovação de todos os estatutos do movimento eclesial, que inclusive tem seu escritório internacional no Vaticano.

No protestantismo, a glossolalia é admitida pelas correntes pentecostal e neopentecostal. As demais igrejas, tidas como históricas ou tradicionais refutam a manifestação contemporânea da glossolalia. Ou seja, para as igrejas históricas, o fenômeno está restrito aos tempos bíblicos.

Antes do cristianismo, diversos grupos religiosos praticavam formas de glossolalia. No Oráculo de Delfos, a sibila (sacerdotisa do deus Apolo) falava com estranhos sons que se supunham ser mensagens do deus. Alguns textos gnósticos do período do Império Romano possuem fórmulas silábicas como “t t t t t t t t n n n n n n n n n d d d d d d d…” etc. Crê-se que tais seriam transliterações de sons feitos por glossolalia.

Atualmente, religiões como o espiritismo supostamente apresentam fenômenos semelhantes, incluindo manifestações de xenoglossia. Fenômenos de glossolalia são observados também no xamanismo, no vodu haitiano, em alguns grupos judaicos hassídicos e entre os sufi muçulmanos.

O Ceticismo do Apóstolo Paulo Acerca do Dom de Línguas

Eu quisera que vós todos falásseis em outras línguas; muito mais, porém, que profetizásseis; pois quem profetiza é superior ao que fala em outras línguas, salvo se as interpretar, para que a igreja receba edificação. Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina? É assim que instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara? Pois também se a trombeta der som incerto, quem se preparará para a batalha? Assim, vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar. Há, sem dúvida, muitos tipos de vozes no mundo; nenhum deles, contudo, sem sentido. Se eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e ele, estrangeiro para mim. (...) Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos? (...) No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. (...) Tudo, porém, seja feito com decência e ordem. (Parte de I Coríntios, cap. 12).

Opinião Científica

Nos anos 70, o fenômeno atraiu a comunidade acadêmica com estudos publicados pela antropóloga Felicitas Goldman e pelo linguista William Samarin. Goldman descreveu a ocorrência da glossolalia em situações distintas e Samarin considerou que a glossolalia não constituía uma língua per si nos parâmetros conhecidos da ciência linguística.

Muitos estudos psiquiátricos associam os fenômenos religiosos modernos com os sintomas ditos glossolálicos. Neste sentido, Hempel e outros, em 2002, encontraram num universo de 148 pacientes de instituição penal, 18 casos de glossolalia, associados a delírios religiosos ou sexuais e a hiper-religiosidade, como sintomas de casos de distúrbio bipolar, comum a todos.

Uma pesquisa publicada em 2006 pela Universidade da Pensilvânia descobriu que quando um indivíduo produz glossolalia, a área do cérebro que controla a linguagem não é ativada. Ou seja, no indivíduo que fala as tais “línguas estranhas” não há preocupação em formar sentido, coesão, textualidade, como fazemos quando falamos e conversamos normalmente.

Opinião pessoal

Embora hoje eu simplesmente não creia no dom de línguas, durante anos acreditei que o tinha. Mas quando passei a ser sincero comigo mesmo, entendi que se tratava apenas de um forte desejo pessoal de me adaptar, me identificar, com o grupo religioso que frequentava, necessidade e mecanismo naturais a todos os indivíduos humanos.

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