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Ateus Suicidas e Crentes Depressivos


Um colega evangélico disse que os ateus têm tendência ao suicídio e são infelizes porque os países europeus, de maioria ateia, apresentam os maiores índices de suicídios. Não podemos negar as estatísticas que apresentam um índice geral maior para a Europa e Ásia, mas generalizar que ateus são propensos ao suicídio e infelizes com base nisso é, no mínimo, injusto, senão desonesto. Seria como afirmar que todos os crentes têm inclinação ao suicídio porque 913 pessoas cometeram suicídio coletivo sob o comando do pastor Jim Jones e 39 membros da religião Heaven's Gate deram fim a própria vida acreditando que o cometa Hale-Boop era uma passagem para o paraíso.

Epidemiologia

No mundo 815.000 pessoas cometeram suicídio no ano 2.000, o que perfaz 14,5 mortes por 100.000 habitantes (uma morte a cada 40 segundos). A maioria dos suicídios ocorre na Ásia que concentra cerca de 60% de todos os suicídios do planeta. Segundo a Organização Mundial da Saúde, China, Índia e Japão são responsáveis por 40% de todos os suicídios. Em números absolutos a China lidera as estatísticas com 195 mil suicídios, seguida pela Índia com 87 mil, a Rússia com 52,5 mil, os Estados Unidos com 31 mil, o Japão com 20 mil e a Alemanha com 12,5 mil. Mas países do Leste Europeu são os recordistas em média de suicídio por 100.000 habitantes. A Lituânia (41,9), Estônia (40,1), Rússia (37,6), Letônia (33,9) e Hungria (32,9). Guatemala, Filipinas e Albânia estão no lado oposto, com a menor taxa, variando entre 0,5 e 2. Os demais países estão na faixa de 10 a 16. Observando a religião dominante dos países de maior índice de suicídios supracitados, a seguinte realidade é revelada: Lituânia: 85% de cristãos; Estônia: 84% de ateus; Letônia: 78,9% de cristãos; Rússia: 73.3% de cristãos; e Hungria: 86.7% de cristãos. Observe que somente 1 dos 5 países com maior índice de suicídios tem maioria ateia.

É importante lembrar que houve uma grande convulsão socioeconômica que varreu os países do bloco comunista com a substituição da economia 'planificada' pelo capitalismo, o que levou multidões ao desespero e uma parcela destas ao suicídio nestas ultimas décadasA taxa de suicídios em alguns países com alto percentual ateu, mas de fora desta região, quando comparada com países de maioria cristã, também demonstra uma condição favorável aos ateus. Um exemplo é a Holanda com 44% de não religiosos, onde a taxa é mais baixa do que a de Porto Rico, Uruguai (altíssima), Trinidad e Tobago e Estados Unidos, que são países com maioria absoluta cristã.  No maior país evangélico do mundo, os EUA, em números absolutos vistos anteriormente, há mais suicídios do que em qualquer outro país de maioria ateia europeu. Segundo dados de 2008, fornecidos pela World Health Organization, a taxa de suicídios aumentou na ultima década nos EUA, e no Brasil, regionalmente, o índice é semelhante ao de países com as maiores taxas do mundo, principalmente no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso do Sul.

Baseados nestes dados, onde países de maioria religiosa possuem índice maior do que os de países de maioria ateia, seria verdadeira a afirmação de que religiosos são infelizes e propensos ao suicídio?

Depressão e Religiosidade

Émile Durkheim, pioneiro no estudo da depressão e, curiosamente, de orientação ateia, em sua teoria sobre o suicídio acreditava que a religião promove valores compartilhados, interação e limites sociais fortes que reduzem a sensação de isolamento e, ao mesmo tempo, estabelecem um conjunto de ideais pelos quais viver, constituindo-se um fator que ajuda contra o suicídio. Porém há um outro extremo na religiosidade pois, onde há vínculos afetivos muito fortes, pode haver suicídio como nos casos dos terroristas islâmicos. Talvez a autoridade deste pesquisador tenha suscitado uma crença equivocada desfavorável aos sem religião.

Um estudo brasileiro revela que pensamentos suicidas significativos são encontrados em 26,4% dos católicos, 24% dos evangélicos, 13,3% dos espíritas e em apenas 10% das pessoas que se definem sem religião. Outro estudo* publicado pela Unicamp em 2008 revela que a depressão é mais frequente entre religiosos (30%) do que entre pessoas sem religião (20%). Este percentual desfavorável para os crentes é explicado em parte pela maior pressão psicológica pessoal e social a que estes são submetidos para ter uma melhor qualidade de vida, pois supostamente possuem a seu favor um ser onipotente que os ama, mas na prática não os deixa em um patamar melhor, aumentando assim a ansiedade. O que não acontece com o ateu que vê mecanismos naturais e seu próprio desempenho como a causa de suas adversidades, evitando mais uma fonte de depressão oriunda do desejo de ajuda divina. Por outro lado, como num efeito colateral, o crente, embora mais depressivo, mantém esperança de melhora e temor em sua divindade que o desestimula a concretizar o suicídio. E o ateu menos depressivo, mas sem esta anestesia cultural, pode ceder com mais facilidade à tentação de dar cabo à própria vida numa situação difícil como, por exemplo, sob a dor de um câncer terminal que não é aliviado mesmo com altas doses de morfina, ou devido ao abandono familiar na velhice, situações comuns independentes das crenças pessoais. Entendendo desta forma é admissível dizer que o ateu, mesmo tendo menos pensamentos suicidas e depressivos do que o religioso, seja mais vulnerável ao suicídio por não limitar tal ato pelo temor divino.

Outros Fatores

Estudos comprovam que ambientes sombrios como o que ocorre a maior parte do ano nos países nórdicos, onde os índices de suicídio são maiores, causam depressão independentemente do credo que as pessoas professam, pois a produção de serotonina – o neurotransmissor do prazer – no corpo humano requer ambiente iluminado. Talvez o clima tropical explique, em parte, porque ateus são menos depressivos que os religiosos no Brasil. Redução na produção de hormônios na menopausa e andropausa, distúrbios orgânicos e predisposição genética também são fatores relevantes para certos quadros depressivos.

Epílogo

Um entre muitos motivos que levam europeus e japoneses ao suicídio é o altruísmo. Quando fortes crises financeiras ocorrem nestes países, alguns cometem suicídio para que filhos e esposas recebam indenizações de seguradoras, ou seja, o afeto que se tem pela família é considerado mais importante que a própria vida. Outro motivo que acentua o suicídio no Japão é a cultura deixada pelos samurais acerca do suicídio honroso quando se falha numa missão ou se comete erros graves. Além de crises financeiras e herança cultural há muitos fortes motivos que levam tanto ateus quanto religiosos ao suicídio, como doenças terminais dolorosas, decepção amorosa, alcoolismo, vício em drogas, entre outros. Coincidência ou não, os suicidas que conheci pessoalmente foram uma amiga adolescente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus e um amigo muito próximo frequentador da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Quem diz que ateus são propensos ao suicídio e infelizes não o fala baseado em fatos. As estatísticas demonstram que ateus não só são menos depressivos como são mais inteligentes que a média, menos violentos e cometem menos atos criminosos.

O fato de um crente ser mais feliz do que um cético não é mais pertinente do que um bêbado ser mais feliz do que um sóbrio.” George Bernard Shaw.

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Rachel Esteves Soeiro e col. Religião e transtornos mentais em pacientes internados em um hospital geral universitário. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(4):793-799, abr, 2008.

11 comments:

  1. Orlando-BA7:02 AM

    A presença da religião em todos as culturas apenas prova que o ser humano é religioso, não que seus deuses existam.

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  2. A religião surge da experiência do espaço sagrado na vida mundana, do numinoso. Os críticos da religião sempre misturam a religião institucionalizada com a experiência religiosa. São duas coisas diferentes. O sentimento numinoso, este sim, é presente em todas as culturas. Denominar este sentimento de Deus, é uma forma de colocar as coisas, mas não desqualifica a experiência em si.

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  3. fui católico, evangelico e fiquei uns dois anos em depressão, mas foi exatamente esta depressão que me permitiu reformular muitas "verdades" que não correspondiam a realidade, coloquei quase todas as tais verdades no vaso e dei descarga, quando comecei a reformular meu conceitos sob a ótica ateia, senti pela primeira vez na vida (já com uns 25 anos) o gosto da liberdade, liberdade de pensamento, liberdade de consciencia, pude sentir algo parecido com o que eu sentia quando era criança, antes de ser catolico, ou evanjelico, antes mesmo do contato com os delirios dos adultos que eles adoram chamar deus, talvez para tentar legitimarem seus devaneios às perguntas sem respostas. Hoje com 36 anos prefiro ignorar mil verdades do que enfiar uma mentira na cabeça. como diz uma cançao do Guilherme Arantes: "...Quando fui ferido, vi tudo mudar, das verdades que eu sabia, só sobraram restos...."

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  4. realmente ja pensei varias vezes em suicidio, talvez cometa um dia mas, estou feliz com a vida sem sentido que tenho, talvez apareça um amor em minha vida e mude tudo.... Jefferson

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  5. Ricardo8:07 AM

    Pelas músicas depressivas dos crentes, acho que os infelizes são eles!

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  6. Anonymous1:49 PM

    Um dia todos vão saber a verdade, então pra que tanta polêmica, tanta certeza de ambas as partes, acreditando em Deus ou não , tentem praticar o bem e viver em PAZ....

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  7. caçador de asnos10:59 AM

    Se não se sabe enquanto está vivo, muito menos quando estiver morto. Santíssima ign!!!!

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  8. Morte, óbito, fim, decomposição, o resto é balela para confortar, justificar, compensar. MORTE....

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  9. Curioso como Albânia, o principal símbolo da miséria comunista bem distribuída do Século passado, tenha a menor percentagem de suicídios. Ao contrário da Alemanha, talvez o melhor símbolo de crescimento económico depois da Segunda Guerra Mundial, tenha mais suicídios. Mas é preciso cuidado a tirar conclusões do género: "a miséria salva do suicídio e a riqueza causa suicídios". Podemos esquecer factores desconhecidos que contribuem à riqueza e suicídio ou confundir as causas pelas consequências.

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  10. Como disse certo cientista tudo é relativo. Discutir existência de um ser superior sempre exigirar a fé. Assim como achar q somos mera coincidência ou acaso.

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  11. A seita de Jim Jones e a Heaven's Gate não eram crentes. Informação atravessada essa aí...

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