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Exceções Naturais: Regras Espirituais


Ao ligar a TV certa noite me deparei com a entrevista de um conhecido do tempo em que fui evangélico. Ele fez um curta metragem no qual mostrava como tinha enriquecido quando mudou de igreja. Uma história que seria exemplo de fracasso e superação se não fosse mentira. Quando o conheci, há muitos anos atrás, ele já possuía a mini-riqueza que dizia ter adquirido somente a partir das reuniões na nova igreja que passara a frequentar. De fato grande parte do seu patrimônio já existia mesmo antes de ser evangélico. Lembrei-me então de outros dois testemunhos envolvendo fatos deprimentes. Foram de duas fiéis da congregação da qual eu participava, uma com cirrose hepática e outra com câncer de mama que, ao descobrirem suas doenças a partir de uma crise, iniciaram tratamento médico e foram ao púlpito da igreja testemunhar suas curas milagrosas, mas em torno de um a dois meses vieram a falecer.

Algo interessante que podemos observar nos testemunhos sobre milagres do cotidiano hodierno é que, quando não são equivocados, são exceções à regra, muitos dos quais são verdadeiras tragédias. Enriquecimento creditado a reuniões evangélicas, sobreviventes de acidentes e curas de doenças graves são alguns exemplos de que tais situações são privilégios de uma pequena fração da multidão que deposita sua fé em Deus. Os raros casos de 'cura' de AIDS testemunhados nos púlpitos de igrejas, quando não são falhas de avaliação, podem ser explicados pela biologia, pois o desenvolvimento de imunidade é uma característica encontrada em praticamente todas as espécies animais que, embora às vezes dizimadas, dificilmente são extintas por uma única doença. Há também casos de vacinas que interferem nos testes sorológicos acusando soro positivo para pessoas sem AIDS que pode ser negado por um teste posterior. Tal situação acaba sendo explorada por pregadores ávidos por conquistar almas.

As desgraças alheias não consolam pessoas empáticas exceto quando lhes é doutrinado: "Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua direita; mas tu não serás atingido" (Salmos 91.7). Orações como 'obrigado Senhor porque tenho e meu próximo não tem, porque sou e meu próximo não é', as quais aparecem em textos devocionais 'inocentes', revelam um aprendizado que banaliza a dor alheia. Aqueles cujos pensamentos e sentimentos não admitem tal postura, são os de verdadeira nobreza interior e alcançam o ápice de humanidade que está bem acima de qualquer amor forçado por ameaças de infortúnios e promessas de recompensa.

Prejuízos completos ou parciais são sempre perdas, nunca vantagens nem milagres. Fatos como acidentes com sequelas graves não deveriam ser considerados milagre simplesmente porque as vítimas sobreviveram. O problema é que quando a vida continua depois de uma grande tragédia como a perda de um ente querido ou mutilação do próprio corpo, uma boa dose de ilusão nos ajuda a continuar. Admitir a realidade pura e simples é mais difícil e poucos encontram consolo desta forma.

Não seria justo que num acidente de avião, por exemplo, um sobrevivente fosse prova da existência de milagres e de Deus e as centenas de mortos fossem a prova contrária multiplicada várias vezes? O que fica claro nestes fatos é que muitos se fascinam com as exceções do mundo natural acreditando que são as regras do seu mundo imaginário.

"A doutrina de um Deus pessoal interferindo com os eventos naturais nunca poderá ser refutada pela ciência, pois essa doutrina pode sempre se refugiar naqueles domínios nos quais o conhecimento científico ainda não foi capaz de se firmar." Albert Einstein 

1 comment:

  1. Só posso aplaudir o texto : clap ; clap ; clap

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