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O Dilúvio Segundo a Ciência (A Origem da História da Arca de Noé)

O Dilúvio, gravura de Gustave Doret (1832-1883),
mostrando um tigre e um grupo de pessoas ilhadas.
O dilúvio bíblico encontrado no livro de Gênesis é até hoje objeto de crença de milhões de fiéis cristãos, judeus e islâmicos, além de alvo contínuo de pesquisas científicas. Seria este um fato, um mito ou mais uma fábula? Há evidências materiais que comprovem sua ocorrência no passado? Seria um evento local ou universal como literalmente afirmam as escrituras sagradas?

O Dilúvio nas Civilizações Antigas

O termo dilúvio refere-se a uma grande quantidade de chuvas capaz de devastar uma região extensa. Segundo diversas mitologias e registros antigos, houve uma terrível inundação que teria coberto o mundo todo, o dilúvio universal. Nas mais variadas culturas, em todos os continentes, existiram tradições que aludem a esta ocorrência, tendo sido documentadas em torno de 250. Os registros históricos mais antigos que se conhece têm cerca 4500 anos, sendo dessa época as civilizações mais antigas como a suméria e a egípcia, mas também é descrito em fontes americanas, asiáticas, assírias, armênias e persas. Para a civilização ocidental, a história mais conhecida é a da arca de Noé.

A Epopéia de Gilgamesh

Tábua de argila do séc. VIII a.C.
contendo parte da Epopéia de
Gilgamesh que inspirou o
mito de Noé registrado 200
anos depois em Gênesis.
A epopéia de Gilgamesh é o relato mais antigo sobre um dilúvio. Este mito sumério conta os feitos do rei da cidade de Uruk, Gilgamesh, que parte em uma jornada de aventuras em busca da imortalidade, nesta busca encontra as duas únicas pessoas imortais: Utanapistim e sua esposa. Estes contam a Gilgamesh como conquistaram tal sorte. Segundo o mito, o casal recebeu o dom da imortalidade ao sobreviver ao dilúvio. Nesta tradição suméria, o homem foi dizimado por incomodar aos deuses. Diz a lenda que o deus Ea, por meio de um sonho, apareceu a Utanapistim e lhe revelou as pretensões dos deuses de exterminar os humanos através de um dilúvio. Ea pede a Utanapistim que renuncie aos bens materiais e conserve o coração puro. Utanapistim, então, reúne sua família e constrói a embarcação que lhe foi ordenada por Ea, estes ficam por sete dias debaixo do dilúvio que consome a raça humana:

"Eu percebi que havia grande silêncio, não havia um só ser humano vivo além de nós, no barco. Ao barro, ao lodo haviam retornado. A água se estendia plana como um telhado, então eu da janela chorei, pois as águas haviam encoberto o mundo todo. Em vão procurei por terra, somente consegui descobrir uma montanha, o Monte Nisir, onde encalhamos e ali ficamos por sete dias, retidos. Resolvi soltar uma pomba, que voou para longe, não encontrando local para pouso retornou (…) Então soltei um corvo, este voou para longe encontrou alimento e não retornou."

Seu registro mais completo provém de uma tábua de argila escrita em língua acádia do século VIII a.C. pertencente ao rei Assurbanipal, tendo sido, no entanto, encontradas tábuas com excertos que datam do século XX a.C., sendo assim o mais antigo texto literário conhecido.

Comprovação Científica

Em 1998, William Ryan e Walter Pitman, geólogos da Universidade de Columbia, publicaram evidências do rompimento de um istmo em Bósforo por volta do ano 5600 a. C. Nesta época de nossa história geológica ocorria no nordeste europeu o derretimento de vastas camadas de gelo da última glaciação, cuja consequência direta foi transformar o Mar Negro e o Mar Cáspio em extensos lagos de água doce, ao mesmo tempo em que o nível da Bacia do Mar Mediterrâneo permanecia bem abaixo das quotas atuais devido a um acidente geográfico que fechou o estreito de Gibraltar impedindo a alimentação do Mediterrâneo pelas águas do oceano Atlântico. Conforme o degelo avançava, muitos dos cursos de água que alimentavam o Mar Negro mudaram de direção e passaram a encontrar saídas para o Atlântico o que causou um déficit na alimentação do Mar Negro fazendo seu nível regredir e perder a ligação com os mares Cáspio e de MarmaraDo recuo do Mar Negro surgiu uma depressão fertilíssimo onde hordas populacionais se sedentarizaram como as civilizações dos Curganos e dos proto-Sumérios. O prosseguimento do degelo fez aumentar o nível do Atlântico que rompeu a barragem natural que o separava do Mediterrâneo, o que elevou o nível deste rapidamente. Segundo Ryan e Pitman, a pressão do Mediterrâneo forçou o rompimento do antigo istmo do Bósforo, provocando o surgimento de uma cascata de água salgada que inundou os 155.000 km2 da antiga depressão do Mar Negro e expandiu os seus limites em direção ao norte e oeste habitado pelos precursores dos Sumérios.


Dilúvio do Mar Negro - Caminho das águas do Atlântico até
o Mar Negro indicado pelas setas vermelhas.
(clique na imagem para amplia-la)
A análise dos sedimentos no Mar Negro em 2004 por um projeto pan-europeu (Assentamento-Projeto Noé) revelou-se compatível com a conclusão de Ryan e Pitman. Cálculos feitos por Mark Siddall, da Universidade de Bristol, predisseram um desfiladeiro submarino causado por este cataclismo local que de fato foi encontrado. Numa série de expedições uma equipe de arqueólogos marinhos liderados por Robert Ballard, identificou, no fundo do Mar Negro, vestígios de cascas de caramujos de água doce, antigas costas e barrancas de rios submersos, madeira trabalhada e estruturas construídas por mão humana a 90 metros de profundidade ao largo da costa da Anatólia. Datação por radio-carbono dos fósseis dos caramujos indicou idades acima de sete mil anos. Amostras de cristais de sal formados somente sob ação direta de radiação solar, obtidas a grande profundidade em toda a extensão do leito do Mediterrâneo, demonstram que este, na mesma época, esteve muito abaixo do nível atual. Tais descobertas confirmam materialmente a teoria de Ryan e Pitman.

Mar Negro - Região em azul claro era
habitada pelos sumérios antes da
invasão das águas do Mediterrâneo.
"A cada dia, 42 km3 de água foram despejadas, duzentas vezes o volume do que flui pelas cataratas do Niágara. A torrente do Bósforo rugia e jorrava em fluxo máximo por pelo menos trezentos dias." (Ryan e Pitman)

A principal consequência deste evento foi a diáspora dos indo-europeus que vicejavam às margens do proto-Mar Negro. Estes foram forçados a fugir, espalhando-se em direção à Europa Central, ao Vale do Danúbio, à Anatólia, ao Cáucaso, ao Irã, à bacia caspiana e regiões adjacentes. Os Sumérios se refugiaram no planalto iraniano, de onde mais tarde desceram para a Mesopotâmia levando consigo o mito da aventura de Gilgamesh, o qual em torno de 200 anos depois foi adaptado ao monoteísmo judaico como a vida de Noé.

Abrangência Universal

O dilúvio do Mar Negro explica a origem da epopeia de Gilgamesh e da história da arca de Noé, mas não a existência de narrativas similares encontradas ao redor do mundo. Os povos americanos, como os Astecas, Maias e Incas e as diversas tribos indígenas, surgiram de migrações provenientes da Ásia quando esta foi ligada ao continente americano por um istmo formado no estreito de Bering, devido à redução do nível do mar causada pela ultima glaciação há pelo menos 12.000 anos atrás, ou seja, muito antes do dilúvio do Mar Negro. Como poderiam ter conhecimento de um evento ocorrido milhares de anos depois de já estarem isolados nas Américas? Um fato que explicaria narrativas semelhantes a nível mundial seria que hoje estima-se que o gelo cobre 10% da superfície das terras e mares, na ultima glaciação este percentual foi em torno de 32%, o que rebaixou o nível do mar em torno de 150 metros devido ao acúmulo de água em estado sólido nos pólos e em regiões glaciais. Desta forma os mares recuaram vários quilômetros onde povoados pré-históricos se instalaram ao redor do mundo. Provavelmente, com o fim da ultima glaciação, o avanço dos oceanos sobre terras costeiras habitadas e mudanças climáticas drásticas que aumentaram as ocorrências de tornados, tempestades, furações e tufões deram origem às narrativas sobre dilúvios em todos os continentes. Mas, embora a invasão dos oceanos tenha sido sobre áreas extensas, não atingiram proporções expressivas em relação ao total de terras não submersas. De fato nunca houve água suficiente para cobrir mais que 2/3 do globo terrestre, além de implicações físicas descartarem qualquer possibilidade de uma submersão universal conforme os autores de tais narrativas sugerem. Inúmeras aldeias e cidades primitivas afastadas do litoral e localizadas em regiões tropicais sequer foram afetadas pela idade do gelo, muito menos pelos eventos climáticos que marcaram o início do período interglaciar no qual vivemos.

Geologia Diluviana

Segundo defensores da geologia diluviana, fósseis de animais marinhos encontrados sobre montanhas são indícios de um dilúvio universal. Entretanto estratificações e datações radiométricas revelaram que tais fósseis são de milhões de anos atrás - ou seja, de muito antes da ultima glaciação - quando o lento processo de deriva continental criou as grandes cordilheiras hoje existentes, elevando porções descomunais de terras do fundo dos mares a milhares de metros de altura. A geologia diluviana interpreta a história geológica da Terra em termos do dilúvio universal descrito no livro do Gênesis. Visões semelhantes tiveram algum papel no desenvolvimento inicial da geologia como ciência sendo aceitas mesmo depois da cronologia bíblica ter sido rejeitada por geólogos em favor de uma Terra antiga, entretanto idéias do tipo foram sendo abandonadas com os avanços tecnológicos como a datação radiométrica desenvolvida em meados do século XX. Geólogos diluvianos modernos, quase sempre criacionistas da Terra Jovem, consideram, por princípios ideológicos, a historicidade da Bíblia infalível, o que afeta uma opinião isenta, e se apoiam em estudos desatualizados de geólogos proeminentes dos séculos XVIII e XIX. Hoje a geologia diluviana entra em discordância ao consenso científico em geologia, física, química, genética molecular, biologia evolutiva, arqueologia e paleontologia, e a comunidade científica considera o tema como pseudociência.

Conclusão

O fim da ultima era glacial foi marcado por grandes alterações climáticas e degelo que elevaram o nível do mar causando inundações que atingiram as primeiras civilizações espalhadas pelo globo terrestre, principalmente as instaladas nos litorais, regiões árticas e subtropicais. Eventos dessa época, como o dilúvio do Mar Negro, inspiraram mitos diversos, entre eles a epopeia de Gilgamesh, a arca de Noé e o dilúvio universal.

"As religiões são todas iguais: fundadas sobre fábulas e mitologias." Thomas Jefferson, presidente americano, escritor, cientista, arquiteto, educador e diplomata

Ver também Mitologia Grega: Verdade Cristã.

15 comments:

  1. Alexandre

    Excelente, didática e direta explicação sobre as origens do mito do dilúvio.
    Parabéns pela clareza e pelo trabalho de pesquisa!

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  2. caçador de asnos4:12 PM

    Ótimo,ótimo, ótimo, excelente!!!! Donkeys Hunters!!!! kkkkkkk

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  3. Cristão pentecostal10:30 PM

    A ciência prova a verdade do Dilúvio, Louvo a Ti oh Deus por que até os ateus reconhecem tua veracidade!!!! Por isso tua Santa Palavra diz: As pedras falarão!

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    1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, vc nem leu

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  4. O dilúvio era uma lenda contada em várias civilizações mais antigas que o Velho Testamento.
    Nos primórdios, todos os eventos climáticos ou sísmicos ainda não tinham explicação, pois o homem desconhecia totalmente a ciência da meteorologia e geologia, então qualquer fenômeno que na verdade acontecia em nível regional, era frequentemente associado como castigo de deuses.
    Hoje em dia com o avanço dos conhecimentos, não nos cabe continuar acreditando em lendas, pois, estamos noutros tempos e é sabido que a religião causa um grande atraso na mentalidade das pessoas impedindo-as de conhecer os verdadeiros sentidos das coisas que acontecem ao seu redor.

    Felizmente entendemos mais destes eventos naturais e não nos cabe mais atribuí-los a força de um ser superior como forma de castigo ou seja lá o que for para impressionar os incautos.
    Se não atualizarmos nossos conhecimentos, seremos sempre ignorantes de nós mesmos como os homens da era Paleolítica ou Pedra Lascada.
    .

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    1. Ana,

      O interessante é que as evidências mostram justamente que o dilúvio bíblico é uma variação de outras lendas antigas que, conforme você bem observou, descrevem eventos climáticos e geológicos de eras passadas.

      Ainda assim persistem em tentar se apropriar inclusive das evidências, as quais provam justamente o contrário, para dar crédito a um criador improvável. O interessante é que precisam escrever isso de modo chamativo. Sendo este hipotético ser, onisciente, onipresente e tão poderoso, será que ele precisaria desse tipo de apoio? =)

      Abraço!

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    2. louvado sejao nome do nosso Deus, que tem 30% de cristãos na comunidade científicas, comprometidos com Sua verdade!!!! o Mundo está feliz, pois passarão os céu e a terra, mas não se omitirá um jota ou um til da Palavra, sem q tudo se cumpra

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    3. Curioso é ler como céticos por escolha, também escolhe em qual mito querem acreditar...rsrs, acreditam nos milhões de anos de um tipo de datação que já apresentou falhas grotescas...mas não acredita na unicidade de uma história...se 250 povos de todo o mundo contam uma mesma história...qual a probabilidade de todos estarem mentindo???
      Mas se pegam uma rocha centenária e fazem um teste de radiometria e ela acusa 250.000.000 de anos...isso é ignorado...ou aceitam uma explicação extremamente subjetiva e que se enquadra nos mitológicos milhões de anos...

      Alguns cientistas de hoje, são tão dogmáticos que é possível confundi-los com extremistas islamicos...e levam com eles uma horda de zumbis que tem raiva de religiões e acreditam em qualquer coisa, por mais absurda que seja, simplesmente por levar o nome de "ciência".

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    4. Na verdade, não existe dogma em ciência. Em ciência, nada é aceito sem provas, sem evidências. A taxa de decaimento ou desintegração do isótopo Carbono 14 é um fato. Não se compara, por exemplo, à alegação da existência de um ser extrordinário, uma super inteligência cuja a origem não precisa ser explicada, controlando tudo através uma conexão exclusiva com cada átomo do universo... Não, a ciência, vale repetir, se baseia em fatos, evidências e não em preferências pessoais. Tudo em ciência é verificado pelos pares e questionado enquanto for cabível. Já na mitologia não se aceita questionamentos. Por exemplo: duvidar da existência de um deus. Isto sim é dogma! E esta é uma diferença fundamental que expõe que você não domina conceitualmente o que afirma. Eduque-se ou informe-se um pouco mais meu caro. Isto pode ser mais libertador do que crendices.

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  5. Cacoal11:31 PM

    Esclarecedor, muita gente pensa que a bíblia é um texto original revelado diretamente por deus quando é uma coletânea de tradição politeísta de tempos mais antigos do que ela como a epopeia de gilgamesh. A pesquisa científica está impecável, parabens!

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  6. This comment has been removed by the author.

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  7. Não dá para dizer que Jeová e Alá são o mesmo por causa da diferença de preceitos, ainda assim há quem diga que são. Se o dilúvio bíblico fosse universal (Gênesis 7:19) e só a família de Noé tivesse sido poupada (Gênesis 7:23), a partir dali Javé seria único. Depois disso, o que levaria o homem a criar os deuses egípcios, gregos, maias, indianos e todos os outros? Mesmo com toda a imaginação humana e a aparente ausência do Criador, talvez tivéssemos, no máximo, variações do tipo Alá, Jesus e Maria.

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  8. A despeito de ser ou não mais uma estória incrível, Ninrode é a explicação perfeita, à maneira da Bíblia, para o surgimento de tantos outros deuses depois de Noé. Com algumas considerações, até consigo conceber a Trindade Profana dando origem às religiões panteístas e às trindades grega, romana, egípcia e depois cristã. Só não sei como, depois de apenas 130 anos do Dilúvio, Ninrode, bisneto de Noé, consegue tanto poder como rei de várias cidades, inclusive de algumas consideradas grandes, como Babel, entre outras que não estariam sob ele, tendo como predecessores somente os quatro casais remanescentes da enchente.

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    1. Josafá10:05 PM

      bem interessante seu ponto de vista Francisco. eles cumpriram bem o mandamento crescei e multiplicai.
      muito boa a postagem também, parabéns para o pessoal do blog!

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  9. Warlei Alves você acredita na existência de Deus?

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