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Deus e os Feios


Recentemente fui incumbido ao aconselhamento de um jovem deprimido cujo motivo era sua aparência física. Ele se achava magro demais, com nariz grande e estava repleto de acne. Se sentia rejeitado pelas mulheres e socialmente isolado. Lembrei-me então de outra ocasião, anos atrás, quando era conselheiro em uma igreja evangélica, onde certo jovem lamentava o oposto: se achava obeso e de nariz chato. Mas também se sentia rejeitado e deslocado. Naquela ocasião expliquei que Deus o amava mesmo assim, tinha um plano para sua vida e que, embora ele e a sociedade pensassem negativamente sobre sua aparência, Deus o via como uma pessoa bela. Lembrei-lhe que a Bíblia cita o messias (Jesus) como alguém feio (sem parecer nem formosura e que não despertava desejos nas mulheres) e, no entanto, sua beleza interior o fez amado, respeitado e conhecido pelas multidões que o seguia. Mas e agora? O que dizer neste novo caso sendo eu ateu e ele alheio à religião? Infelizmente desta vez não tenho a meu favor a pré-disposição do aconselhado a levar a sério o que uma autoridade divina pensava acerca de seu problema como no caso anterior, onde ficou implícito que o jovem enfrentaria um deus iracundo que não tolera a insatisfação acerca dos 'features' estabelecidos por ele às suas criaturas. O medo do castigo divino ajuda na resignação humana sobre problemas de difícil resolução. Neste caso mais recente, meu parecer para aquele jovem foi sob uma ótica sem uso de placebo, mais especificamente com base no neodarwinismo:

As propriedades dos átomos de se combinarem e dissociarem sob ação de energia externa, num regime de caos, estabeleceram o comportamento desde as primeiras moléculas orgânicas até os complexos mamíferos hoje existentes, dos quais fazemos parte. O que, a nível molecular era uma simples atração entre prótons e elétrons, a nível macro biológico pode ter se tornado atração sexual e o desejo do belo e saudável como parceiro. O que era repulsão entre elétrons ou entre íons de mesmo valor, pode ter dado origem à repulsa ao não belo e disforme que, biologicamente, pode indicar esterilidade ou doença, características inadequadas à reprodução e, consequentemente, à perpetuação dos genes da espécie. Se o disforme e o feio fossem uteis à manutenção da espécie, então os nomearíamos 'belos', ou seja, a estética, o juízo do belo e do feio, são imposições da necessidade de sobrevivência.

Pigmeus africanos e um explorador
europeu. Observe a diferença de
alturas, entre outras características,
 graças à seleção natural. Collier's
New Encyclopedia, Volume 1 (1921)
Quando determinadas características surgiram entre os primatas precursores do homem como, por exemplo, quadris mais largos para as fêmeas e ombros de maior envergadura para os machos, a princípio podem não ter sido associadas à beleza, mas aqueles indivíduos dotados destas características foram mais eficientes, pois os quadris largos determinam menor mortalidade no parto tanto para as mães quanto para os bebês e os ombros mais longos determinam maior força física para os machos sustentarem e defenderem a companheira, o grupo e a prole que perpetua o genótipo dos pais. Já os indivíduos de quadris pequenos e ombros curtos, foram extintos ou se tornaram em menor número, pela maior mortalidade no parto e por falta de poder de trabalho em condições adversas. Tais características, por se tornarem comuns, passaram à status de norma e associadas à beleza. Entretanto a diversidade de aparências e indivíduos que se sentem atraídos por estas, mesmo que reprováveis pela maioria, fornecem meios para a perpetuação da espécie numa necessidade de mudança. Os pigmeus, por exemplo, tiveram a seu favor o corpo menor para a sobrevivência em florestas densas e os mais robustos desta sociedade foram eliminados pelas dificuldades locais. Nas sociedades modernas, devido ao desenvolvimento tecnológico para auxiliar no trabalho pesado, e da medicina, essa diversidade outrora desfavorecida, pôde burlar a seleção natural e se fazer mais presente. Desta forma a diversidade de altura, cor dos olhos e da pele, formas do rosto, nariz, pernas, tamanho das mamas, do pênis, excesso ou ausência de pelos, entre muitas outras características, se tornou mais ampla propiciando o nascimento em larga escala de indivíduos dos mais 'feios', passando pelos exóticos, até os mais 'belos'. Infelizmente a distribuição estética promovida pela Natureza é aleatória e não necessariamente corresponde ao caráter e personalidade das pessoas.

Para o adolescente que se considera feio perante os demais, penso que deve tomar uma atitude firme de se preocupar menos com isso e ingressar em atividades de valores morais, éticos e intelectuais sem se descuidar da saúde física. Não conheço nenhum adulto que se julgue feio que não teve oportunidade de encontrar seu par. É importante notar que a beleza física também tem seus problemas, principalmente quando induz tanto aquele que a possui quanto seu círculo social a sentimentos de amizade e amor falsos. Não querendo ser reducionista, embora sejam opções, são raros os casos de baixa autoestima proveniente da aparência física que requeiram academia, orientação psicológica ou intervenção cirúrgica. A grande maioria dos casos, independente da faixa etária, é remediado com a aquisição de beleza interior.

"Olha, você ou pode aceitar a ciência e encarar a realidade ou pode acreditar em anjos e viver num mundo infantil." Matt Groening através da personagem Lisa Simpson

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